UFABC Rocket Design Entrevista: Chantal Cappelletti

PHD pela universidade de Roma e professora na Universidade de Brasília, Chantal Cappelletti é coordenadora do projeto do nanossatélite SERPENS.


1) Quem era você na Universidade? O que você fazia?

Comecei a trabalhar na Universidade de Roma quando era estudante de mestrado em 2006. Minhas atividades eram relacionadas ao grupo de Astrodinâmica do Professor Graziani, chamado GAUSS.

A minha primeira atividade foi o desenvolvimento do primeiro observatório italiano para pesquisa de lixo espacial (projeto SPADE). Ao mesmo tempo trabalhava no projeto UniSat, de desenvolvimento de um pequeno satélite (o UniSat-5).

Participei em muitos projetos educacionais da Agência Espacial Europeia (ESA) como Bexus (desenvolvimento de um payload para um balão de alta altitude), Rexus (desenvolvimento de um payload para um pequeno foguete) e o projeto Fly your CubeSat, para desenvolvimento dos primeiros CubeSats (satélites miniaturizados, usados para pesquisas espaciais e comunicações radioamadoras) da Europa (com o projeto UniCubeSat-GG).

Em 2008 comecei o doutorado, que desenvolvi em parte na Morehead State University junto com o Professor Robert J. Twiggs, inventor do CubeSat.

Em Morehead comecei a minha linha de pesquisa pessoal em biomedicina aeroespacial, contribuindo para a realização do centro de Exomedicina em Kentucky e desenvolvendo duas pesquisas nas últimas duas missões do Space Shuttle em 2011 (STS-134 e STS-135).

Ao mesmo tempo, fui nomeada pelo professor Graziani Project Manager do satélite EDUSAT lançado em 2011, depois assumi a liderança do UniSat-5, do UniCubeSat-GG. Em 2012 na Universidade de Roma. Tivemos um problema administrativo/político e a Escola de Engenharia Aeroespacial foi momentaneamente fechada. Assim eu e o Professor Graziani montamos a empresa GAUSS para continuar as atividades com pequenos satélites e eu assumi o cargo de CEO. Em 2013 participei do concurso para um cargo de professor Adjunto na UnB, começando a minha atividade no Brasil.


2) O que foi/é o seu maior desafio como um engenheiro ou cientista?

Na minha carreira, o maior desafio foi a liderança do projeto EduSat pois, por várias razões, estive com muitas responsabilidades e sem uma equipe qualificada para ajudar-me no desenvolvimento do projeto.

Comecei a liderar o projeto em 2010 e o satélite foi lançado um ano depois. No mesmo tempo tive que aprender a fazer um satélite de verdade (não somente o que estava escrito nos livros), formar uma equipe qualificada, lidar com todos os membros dessa equipe e continuar a minha pesquisa de doutorado e as duas missões no Space Shuttle.

Imagina também que tudo foi feito entre os Estados Unidos e a Itália, por isso eu precisava viajar no mínimo una vez por mês entre os dois continentes.

Fui muito cansativo e tive que sacrificar muito a minha vida privada. Mas lembro a emoção única de ver o meu satélite integrado no lançador..Chorei muito. (a foto do meu perfil foi tirada naquele momento mágico)


3) Como é seu dia típico de trabalho?

Primeiramente começa muito cedo, quando abro os olhos…A primeira coisa é olhar os e-mails. Tenho muitas cooperações internacionais e, por causa da diferença de fuso horário, de noite recebo muitos e-mails. Esses e-mails várias vezes condicionam o que eu vou fazer no restante do dia. Três vezes por semana ministro aulas de manha até a tarde, depois respondo rapidamente os e-mails mais urgentes, vou dar as aulas e ainda tenho os encontros com estudantes, para conversar sobre diferentes pesquisas que estamos fazendo na UnB.

Depois das reuniões, quando há tempo, atualizo os outros projetos de pesquisa que tenho com outras instituições, respondo os e-mails ou leio artigos de pesquisa que podem ser interessantes.

Nos dias que não tenho aulas o meu trabalho é atualizar as lições, corrigir as provas ou os trabalhos de pesquisas feito pelos estudantes, achar recursos para desenvolver outros projetos. Muito raramente consigo parar antes do jantar.


4) Qual é o conselho mais importante que alguém já te deu?

O conselho mais importante é fazer as coisas com paixão e dedicação. Se tem paixão no que você está fazendo você consegue fazer tudo o que você puder imaginar. Sem paixão o primeiro obstáculo travar o seu caminho.


5) Como você vê o futuro da engenharia aeroespacial?

O futuro da engenharia aeroespacial é sem limites, depende da fantasia humana. A engenharia aeroespacial pode ajudar a nossa vida em diferentes aspectos, melhorando as tecnologias ou até achando medicamentos para doenças. É necessário lembrar que existem invenções que foram feitas pela engenharia aeroespacial e que revolucionaram a nossa vida cotidiana. Das mais simples, como o Teflon empregado nas nossas panelas, até sistemas complexos como a MRI empregada pelas pesquisas de novas doenças, para não falar da comunicação com celular, da televisão via satélite e das outras milhares de invenções nascidas com a indústria aeroespacial.


6) Como os estudantes de hoje poderiam se preparar melhor para o futuro?

Primariamente estudando muito, mas não somente focando nos livros, participar de atividades práticas como projetos de construção de pequenos foguetes, satélites ou outros experimentos é muito importante. As atividades praticas são, na minha opinião, fundamentais para aprender de verdade a ser engenheiro.

Outra parte fundamental é ter possibilidade de trabalhar em um ambiente internacional, por isso eu acho que a ideia brasileira do Ciência Sem Fronteiras é um projeto ótimo,mas também os estudantes precisam empregar com mais responsabilidade está chance única que é o projeto.


7) Quem mais te inspirou e por quê?

Quem mais me inspirou são três pessoas que tive a sorte de encontrar. O Professor Graziani, pela paixão que ele tem em ensinar o que ele conhece para os estudantes. Fazer um curso com ele é uma experiência incrível.

O professor Twiggs, pela humildade que ele tem mesmo depois de inventar um produto tão importante quanto o CubeSat e pela sua capacidade de estimular os alunos, mesmo quando eles propõem algo impossível de ser feito.

Acho muito importante não somente aprender, mas ter a capacidade de ensinar o que a gente sabe de maneira simples e divertida para os alunos. Nisso eu acho que a pessoa que mais me inspirou fui o professor Orio Carlini. A minha maior aspiração profissional é ter um dia sua capacidade de explicar argumentos muito difíceis com simplicidade e de maneira muito divertida.


8) Qual mensagem você deixa para os futuros engenheiros aeroespaciais?

A engenharia aeroespacial é muito complexa, é algo que você pode fazer somente se tem muita paixão e capacidade de trabalhar em equipe.

Nunca se desmoralizar, se envolver em projetos de desenvolvimento real de produtos e achar um time confiável e capaz são na minha opinião os três ingredientes fundamentais para atingir os objetivos.

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