UFABC Rocket Design Entrevista – Danilo Miranda

      Você sabia que o Brasil irá lançar o seu primeiro satélite geoestacionário até o começo do ano que vem? O SGDC, Satélite Geoestacionário de Defesa e Comunicações Estratégicas, é um projeto estratégico nacional que está sendo desenvolvido pela empresa brasileira Visiona Tecnologia Espacial, em conjunto com a Thales Alenia Space. Pois bem, hoje a nossa entrevista é com um dos engenheiros aeroespaciais que estão trabalhando nesse importante projeto para o país.
      Danilo Miranda se formou no ITA como Engenheiro Aeroespacial em 2012, passou como estagiário na Embraer e hoje é engenheiro de Sistemas Espaciais pela Visiona, participando do projeto, construção e integração do satélite em Cannes, França, na Thales.
      O Danilo fez questão de responder cada uma das perguntas da entrevista com muita atenção, dedicação e carinho para todos os jovens e futuros engenheiros aeroespaciais do Brasil. Aproveitem a entrevista abaixo como nós aproveitamos.

 1) Quem era você na Universidade? O que você fazia?

Fiz o curso de Engenharia Aeroespacial no ITA, me formei em 2012. Ao longo da faculdade, além de estudar bastante e ficar algumas noites sem dormir que nem vocês, eu imagino (rsrs), tinha minhas saídas com meus colegas de apartamento, fazia parte da equipe ITA Rocket Design e também gostava de música (tocava uma bossa nova com os amigos).

2) O que foi/é o seu maior desafio como um engenheiro?

Assim como o pessoal da UFABC Rocket Design, também tenho um carinho especial pelo programa espacial brasileiro. Fico feliz de hoje poder trabalhar em uma das linhas de frente do programa, através da indústria, na Visiona. Ao lado de grandes profissionais, estamos buscando encontrar e fomentar oportunidades de novos projetos de satélites nacionais, que justifiquem uma base industrial brasileira bem estabelecida e com demanda mais cadenciada. É um baita de um desafio, em especial numa país onde a cultura espacial não é tão forte.

3) Como é seu dia típico de trabalho?

Na Visiona, trabalho numa equipe cujo ritmo de trabalho é ao estilo “escritório de projetos”. Fazemos estudos de viabilidade técnica de novos projetos. Utilizamos para isso uma série de ferramentas e procedimentos que nos possibilitam delinear o estudo conceitual de um novo projeto de satélite, sempre atentos às demandas dos clientes e parceiros envolvidos. Ao final de cada estudo, que pode levar desde algumas semanas até alguns meses, tem-se já um mini “ante-projeto” do sistema satelital em questão, o qual contratualmente falando é viável e tem as informações necessárias para ser concretizado. A partir daí depende do cliente dar sinal verde (e o respectivo investimento, claro) para se dar início efetivamente a um novo projeto.

4) Qual é o conselho mais importante que alguém já te deu?

Poderia enumerar vários, mas vou detalhar um deles que está associado a uma história recente que vivi. Quando participava da equipe ITA Rocket Design como estudante, da mesma forma que vocês, em 2011, tive a oportunidade de participar da equipe do engenheiro Oswaldo Loureda, construir um foguete no ITA, num prazo curto e com poucos recursos e ainda assim naquele mesmo ano, com uma série de incertezas, conseguimos uma excelente colocação na competição mundial. Isso trouxe na cabeça inocente dos estudantes na época um sentimento de que “tava tudo dominado”, seria tranquilo fazer um foguete mais complexo, voltar aos EUA no ano seguinte e pegar o primeiro lugar mundial na competição. A gente fez uma força tarefa incrível, criamos uma série de requisitos técnicos difíceis para o foguete como (alguns que eu lembro de cabeça): usar peças estruturais de titânio, atingir velocidades transônicas e usar o mesmo propelente do VLS. Esses requisitos nada tinham a ver com a competição, a gente podia continuar só usando alumínio no foguete e o mesmo propelente de açúcar do ano anterior e ganhar a competição, mas subiu à cabeça o fato de que dava pra fazer além. O resultado foi que tínhamos um foguete em 2012 que era 10 vezes mais caro que o de 2011, mais bonito, com materiais e equipamentos bem mais modernos, etc etc. Mas cujo desempenho técnico aos olhos da competição era inferior ao de 2011. Na hora do voo, percebemos que tínhamos uma Ferrari em beleza, mas nos esquecemos completamento do objetivo central da coisa.
Mais tarde quando fui para a indústria aprendi o jargão de que “só a spec salva” (spec = especificação, requisito). I.e., o cliente tem uma quantidade de recursos limitada. Ele está disposto a pagar pelo que ele pediu. Se você puder entregar algo que tenha mais funcionalidade do que o desejado e pelo mesmo custo, ótimo. Porém, nunca se esqueça de atender ao que foi pedido, essa é a raiz e a necessidade original que motivou a realização daquele projeto/empreitada.

5) Como você vê o futuro da engenharia aeroespacial?

Irei dividir a resposta em dois contextos: o mundial e o nacional.
No mundo: A engenharia aeroespacial viveu um grande momento de glória na época da corrida espacial. EUA e URSS davam cheques em branco para suas equipes técnicas elaborarem projetos grandiosos, custeados com vultuosas quantias de recursos públicos. Atualmente, não é mais possível justificar esses gastos, tanto é que ninguém nunca mais voltou a pisar na Lua. O que se tem hoje ainda é majoritariamente a participação das agências espaciais como incentivadoras e fomentadoras das atividades espaciais, mas com uma parcela crescente do interesse privado no uso do espaço. Apesar de crescente, a participação puramente privada, excetuando-se o setor de telecomunicações, ainda é tímida ao meu ver. A rentabilidade dos novos atores do setor espacial vai ditar a regra e possivelmente abrir os olhos dos investidores, e imagino eu que o interesse privado vai continuar expandindo. No longo prazo, creio que as atividade espaciais de exploração de serviços (telecomunicações, sensoriamento remoto, aplicações ligadas à navegação, etc) vão achar e criar cada vez mais nichos rentáveis, aumentando a participação privada nesses setores e expandindo o setor espacial como um todo. O turismo espacial também tem grande potencial. Missões científicas, tripuladas (exceto turismo espacial) e planetárias creio eu continuarão naturalmente sob o comando das agências espaciais. Acredito também que o budget das agências espaciais tende a crescer, aliado ao interesse de acompanhar a demanda do setor espacial como um todo.

No Brasil: A meu ver o nosso futuro depende basicamente da frequência de projetos que vamos ter. Caso o Brasil tenha:

Menos de 1 projeto de satélite por ano (1 satélite a cada 2 anos, a cada 3 anos, etc): vamos continuar do jeito em que estamos. Nesse caso, que retrata um baixo investimento anual em espaço, e que é o nosso presente estágio, teremos uma base industrial desaquecida tendendo ao desaparecimento, perda e dificuldade em encontrar pessoal qualificado, institutos de pesquisa com pouco investimento e sem visão de longo prazo, etc. É possível que a área não desapareça por completo, mas ela não logrará grandes desenvolvimentos. É preciso um interesse estratégico prioritariamente público em criar ao menos anualmente novos projetos, pois a indústria espacial é pautada por isso. Via de regra, não existe linha de produção em espaço, cada projeto é um novo “filho”, um sopro de vida novo que se dá aos institutos, à indústria e ao setor em geral.
1 projeto de satélite por ano: Com um satélite novo sendo demandado a cada ano, já se pode falar que há investimento suficiente que justifique a manutenção de equipes permanentes na indústria e nos institutos. A infraestrutura atual, que está parcialmente ociosa, provavelmente comportaria tal expansão moderada sem maiores investimentos. Tal cenário é moderado, no sentido de que minimiza os riscos de desaceleração anunciados no cenário anterior, mas que estabelece as bases para uma eventual expansão, que será descrita no cenário seguinte. O presente cenário seria uma boa alternativa para a próxima década, pois permitiria que a indústria e os institutos se preparassem, recompusessem e se restabelecessem. Tal tempo de maturação irá permitir aos institutos e à indústria requalificar seus procedimentos e equipamentos, recuperando assim o dinamismo necessário para a execução de novos projetos.
2 ou mais projetos de satélite por ano: Tal cenário é o mais otimista. De fato, com 2 ou mais satélites sendo demandando paralelamente a cada ano, serão necessárias duas ou mais equipes completas de projeto em cada empresa e nos institutos, o que acarretará numa maior busca por profissionais do setor. Investimentos serão feitos na ampliação da infraestrutura existente. As empresas nacionais já terão qualificado seus equipamentos, os quais terão herança atestada em múltiplos vôos, que é pre-requisito fundamental para competitividade no mercado externo. Com isso, se poderá pensar eventualmente em exportação para a America Latina e África inicialmente (depois também, quem sabe, para os mercados mais consolidados).

A meu ver, tais números mágicos (<1, 1 ou >1 projeto/ano) estão intimamente ligados com o nível de investimento e mais ainda com o interesse estratégico pela manutenção do setor. Cabe ao governo dar 11 meses de chance para a indústria tentar emplacar 1 projeto de satélite por ano. Se chegar em dezembro de cada ano, e a indústria não tiver conseguido vender nada, daí cabe ao governo estrategicamente assinar o contrato do satélite daquele ano. Ideias e aplicações de satélite não faltam. Na Visiona temos pelo menos atualmente uns 10 pré-projetos lindos de satélites “de papel”. Eles dariam ótimos satélites. O INPE deve ter ao menos umas cinco vez mais do que isso.

6) Como podemos nos preparar para esse futuro?

No contexto Brasil, fico na torcida para que o cenário de ao menos 1 satélite por ano se estabeleça no curto/médio prazo. Vale a pena se capacitar, buscar uma colocação no mercado e ficar atentos às oportunidades. Recomendo ao pessoal da UFABC que busquem uma especialização que seja do interesse e também motivadora para vocês. A gente passa muito tempo no trabalho, temos que fazer algo que a gente gosta. Com o crescimento do setor, os profissionais crescem juntos. Estamos trabalhando com esse ideal em mente.

7) Quem mais te inspirou e por quê?

Essa é uma pergunta delicada. Várias pessoas nos inspiram ao longo da nossa trajetória, nos âmbitos profissional, pessoal, etc. Trabalho atualmente com grandes nomes do setor espacial brasileiro, não seria difícil para mim dizer alguns nomes. Seria possível igualmente citar familiares e pessoas queridas que me ajudaram em cada passo dado.
No contexto de espaço no entanto, creio que no Brasil atualmente estamos precisando mais do que gênios como o Von Braun, a necessidade atual é de alguns grandes articuladores políticos, que consigam costurar os grandes projetos do futuro. Ao longo da história, tivemos pessoas como o General de Gaulle (na França) e Sergei Korolev (na URSS) e muitos nomes também nos EUA, que incentivaram enormemente o setor espacial de cada um de seus países, por meio de sua visão estratégica de futuro.

8) Qual mensagem você deixa para os futuros engenheiros aeroespaciais?

Para a rapaziada, deixo a singela mensagem de seguirem seus sonhos. Façam algo que gostem e que seja recompensador para vocês. Espero que as respostas acima tenham dado um panorama do setor espacial na visão de um jovem engenheiro. Não tomem de forma alguma a minha opinião como verdade absoluta, tomem como uma simples contribuição. Tenham logicamente a sua própria visão crítica do assunto. Um grande abraço e sucesso nas suas carreira!
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Um comentário sobre “UFABC Rocket Design Entrevista – Danilo Miranda

  1. Mesmo para os “não-engenheiros” a entrevista é super interessante de se ler! Parabéns ao engenheiro Danilo e sucesso na sua carreira!

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